"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."

Martha Medeiros

domingo, 18 de julho de 2010

Palavras sem Nexo.


Meus dias têm sido frios. E não é devido á estação do ano mais fria que eles estão assim. Meus dias têm sido frios e vazios. Os meus dias passam e eu nem os vejo. Como se eu estivesse na estação de trem simplesmente vendo o vagão da minha vida passar por mim sem ao menos me dar um tchau. Estou me transformando em uma expectadora da minha própria vida. Não faço mais parte do elenco. Nem figurante sou mais. Me descartei. Me escondi. Me demiti. De repente, caiu sabe-se-lá-Deus-de-onde um banho de água fria na minha cabeça. Me esfriou. Me gelou. Somei isso ao último tapa na cara- ou no coração, como preferirem- e me tornei isso. Esse buraco vazio e oco onde não se encontram mais expectativas, nem sonhos, nem vontades, nem nada. Sou o nada. Desacreditei. De mim mesma. Perdi a inspiração até para escrever. As palavras fogem de mim como se não quisessem ser escritas, arquivadas. Tenho feito as minhas obrigações maquinalmente. Sem vontade. Sem paixão. Sem um motivo para dizer ''oba, hoje tenho que fazer isto, amanhã tenho que fazer aquilo''. O que as pessoas fazem e dizem já não importa mais como importava antes. Nada mais me machuca, nada mais me alegra, enfim, sou um ser inanimado. Nada atinge. Nada felicita, nada entristece. Me mortifiquei. Me mortificaram. A pouca estrutura que eu tinha se destruiu nos últimos 30 dias. Aquela nota final terminou comigo. Com aquele resultado, as minhas esperanças - dobradas e amassadas dentro de mim, diga-se de passagem, e eram poucas- se foram pelo ralo. Olhando aquela nota eu tive a plena certeza de que não importa o quanto eu me esforce, eu não vou chegar lá. Minha capacidade intelectual é inferior a de um inseto. Talvez um rato ou um micróbio (o que é mais provável) seja mais esperto do que eu. Não é drama, é a realidade. As noites de sono que eu perdi, os dias, os passeios, os seis meses inteiros estudando, fazendo rascunhos, anotações, pesquisas, quebrando a cabeça em um laboratório de anatomia tentando decorar veias, artérias e etc, não valeram nada. Eu não consegui passar pela anatomia básica, quem dirá o resto? Eu me esforcei. Dei o melhor de mim. E não consegui. Que diabos de médica eu quero ser um dia? Uma nutricionista, mesmo. Como seria? Impossível. Um grau de burrice completamente avançado e inatingível até para o ser mais desprezível e tapado da categoria. Eu desisti. Desde aquela fatídica sexta-feira, eu perdi as esperanças. Perdi com ela minha mala de vontades, sonhos e aspirações. Tenho, além disso, guardado tudo aqui dentro. Não divido nada com ninguém. Me tornei um túmulo. Me fechei. É claro que tá doendo. É claro que o domingo chuvoso que fez hoje não traduziu nem de longe o meu estado de espírito. É claro que tenho andado mais machucada do que qualquer outro momento que já vivi. É claro que eu quero um colo. É claro que eu quero que alguém venha me dizer que não é bem assim, que vai ficar tudo bem, que ele está ali e vai cuidar de mim. Mas opa, peraí. Eu não tenho quem venha me dizer isto. Eu não tenho quem me convide para passar o domingo chuvoso na casa dele. Eu não tenho quem me apareça com um balde de chocolates e um abraço bem quente para ajudar na minha fossa. Eu não tenho quem me ligue de madrugada só pra saber se está tudo bem e eu já parei de chorar. Eu não tenho um cara que gosta de mim e que esteja disposto a me cuidar. E sabe o que? Desacreditei que um dia vou ter alguém assim. Desacreditei no príncipe no cavalo branco. Desacreditei em tudo. Cansei de me apaixonar sozinha. De não ter quem se apaixone por mim. Nos últimos dias tudo que eu precisei foi de um colo. Foi de chegar do trabalho e ter uma mensagem fofa no celular. Um recadinho fofo no Orkut ou seja lá onde for. Mas não havia nada. Ninguém. Tudo que eu levei foi um pé na bunda- e diga-se de passagem, na pior hora possível- de alguém que talvez eu estivesse me apaixonando. Mas era alguém cujo colo me confortava, e de repente, assim como veio, se foi. Perdi isto também. Tudo ao mesmo tempo. Perdi o colo, o príncipe, a esperança, o sonho e a vontade. Que idiotice a minha, pensar que teria para onde correr quando o mundo desabasse. Mas até isso guardei comigo. Guardei as lágrimas e guardei os chingamentos que pronunciei entre um soluço e outro, e ele provavelmente nem sonha o quanto doeu o rompimento repentino daquilo que ainda nem era nada- na visão dura e realista dele- e que provavelmente jamais viria a ser. Dói. Todos os dias, lateja, loucamente. Nestes últimos dias, percebi que faço tudo por fazer. Que perdi o ânimo com que fazia tudo antes. Minha surpresa maior foi minha total falta de vontade de me matricular este semestre, e por outro lado, a vontade imensa em trancar definitivamente a matrícula. Em largar de tudo. E entender que contra um cérebro inútil, não há nada a se fazer. Ando cansada de ser a adulta. De suportar tudo no osso sem gemer. Ando cansada de ter meu travesseiro como colo e confidente. Ando cansada de ser explorada. Ando cansada das pessoas. Ando cansada da vida. Mas ando cansada, sobretudo, de mim.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

"Me dói,
a possibilidade de um não,
me dói a possibilidade de um silêncio,
me dói não saber de que forma chegar a ele,
sacudi-lo, dizer "me olha, me encara, vamos ou não vamos nessa?"

Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 5 de julho de 2010

''Ela é uma moça de poses delicadas, sorrisos discretos e olhar misterioso. Ela tem cara de menina mimada, um quê de esquisitice, uma sensibilidade de flor, um jeito encantado de ser, um toque de intuição e um tom de doçura. Ela reflete lilás, um brilho de estrela, uma inquietude, uma solidão de artista e um ar sensato de cientista. Ela é intensa e tem mania de sentir por completo, de amar por completo e de ser por completo. Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez. Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna."

(Caio F. Abreu)