"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."

Martha Medeiros

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre a perda de um amor.



'' Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento.

Então, que não se arrependa.
Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos.
Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos.
Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais..''




(Tati Bernardi)


Dos amores mais puros que se vão o que fica e predomina é a saudade. Da saudade, o que fica é aquele sentimento de poder tentado um pouco mais e saber no que daria. Quando se perde um grande amor, se perde um pedaço do coração, um pedaço de sentimento, um pedaço de pureza, um pedaço de sí mesmo. É quase uma mutilação, mas veja bem, quase. Porque uma mutilação literal não te permite reconstrução. A mutilação sentimental, sim. Reconstruir não significa recolocar tudo exatamente no lugar a que pertencia. Ás vezes, a reconstrução requer muita paciência, determinação e compreensão. Porque ao invés de colocar os braços em cima tu acaba colocando embaixo, e a cabeça pode acabar nos pés. Reconstruir significa recomeçar. A cada mutilação que sofremos, é necessário tentar se reconstruir, levantar e começar tudo de novo. Porque é necessário. Não dá pra viver em partes. Não dá pra viver na destruição. Não dá pra viver conformado em perder uma parte de sí mesmo e jamais tentar recuperá-la. Não quero dizer que a parte perdida vai ser reconstruída exatamente igual á antiga. Isso é quase impossível acontecer. Já repararam no antes e depois da reconstrução de algum prédio? O atual nunca fica igual ao antigo. Porque são necessárias mudanças, são necessárias inúmeras reformas que estejam de acordo com o momento. Acontece a mesma coisa com a gente. Se tu perde um grande amor, é necessária, depois de toda a dor, uma intensa reforma interior. Um intenso cuidado com cada sentimento mutilado e cada parte destruída. É necessário muita vontade de melhorar. Muita vontade de recomeçar do zero e reaprender a se cuidar. Não existe regra. É a lei da vida. Você se corta. Dói. Mas então você procura uma neomicina (é antibiótico, deve servir para cortes), um band-aid e cola ali. E espera o machucado e o corte desaparecerem. Tudo, tudo é questão de paciência e persistência. O corte dói por dias. Ás vezes por meses, e também, em muitos casos, por anos a fio. Os band-aids são trocados, é feita a limpeza no corte, e, mesmo assim, a dor persiste. Por isso eu digo, é necessário ser muito mais persistente que a dor. É necessário fazer todo o tratamento, se cuidar, se manter firme (mesmo que muitas vezes tenha que chorar escondida ali no canto pra ninguém perceber que ainda dói), e tentar seguir adiante. A reconstrução de um coração partido é demorada. E nem sempre se alcança a melhora desejada. Digo, quando tu te corta, fica uma cicatriz. Quando tu faz uma operação, recoloca algo no lugar, fica uma cicatriz. Seja do lado de dentro, seja do lado de fora. O que eu realmente quero dizer é que tu perde um grande amor e sai ferido. Tu sai desmontada e perdida. Mas a perda de um grande amor não pode implicar na perda de sí mesmo. Na perda de toda uma vida em função de uma pessoa que te fez feliz por momentos, meses, anos, e se foi. Se se foi, por livre e espontânea vontade, é porque era necessário. E agora, é necessário correr atrás do prejuízo. Dos destroços, do material para reeguer a estrutura abalada. O que não pode acontecer, é de parar a construção. De deixar o corte sangrar sem cuidar. Não dá pra deixar o coração da gente aos pedaços. Não vai ficar a mesma coisa depois de reformado. Nunca mais vai ser a mesma coisa. Uma pessoa entra na sua vida, te faz feliz, te completa, e vai embora. É claro que fica uma dor. Uma saudade. Um rombo. Um vazio. Mas garanto, há meios de superar. Não esquecer, não me entenda mal. Não se esquece um grande amor. Você vai se construir, tirar as partes feias, limpar o corte, recolocar o que foi mutilado e perdido no lugar. Ao longo do tempo, a dor vai amenizar. O que vai ficar do machucado causado pela perda, é uma saudade. Uma vontadezinha de ligar e perguntar como ele está. Uma vontade de saber como seria se ainda estivessem juntos. Mas você não vai ligar, e essa vontade de saber como as coisas seriam vai deixar ir embora, varrer da mente. O que se foi não volta. É necessário compreender isto para tentar se curar. Tentar deixar os alicercer firmes para o próximo vento, o próximo amor não derrubar tudo. Mas se acontecer de derrubar, você vai fazer tudo de novo. É necessário jamais perder a esperança de encontrar algum amor que vá realmente ficar. Que vá dar sentido para o significado desta palavra tão linda e tão doce: amor. Amor, dor, perda, recomeço, mudança, movimento. Tudo isto faz parte da vida. Faz parte de tudo aquilo que é necessário para chegar um dia ao que todos chamam de ''felicidade''. Muito embora eu acredite mais que felicidade tem a ver com momentos e estado de espírito do que com futuro. Por isto, de tudo que eu disse, de todas estas palavras repetidas, de todos estes assassinatos á nova reforma ortográfica e as regras de gramática e sintaxe, o que fica é o seguinte: vai doer, vai machucar, vai cortar. Você vai ser feliz por tempos e sofrer por tempos também. Algumas pessoas aparecem em sua vida para fazer parte dela por um determinado período de tempo. E então elas têm que partir, porque tu já não faz mais parte dos planos e dos caminhos dela. E você deve deixar essa pessoa partir. Vão haver inúmeras partidas ao longo de sua vida. Pessoas indo, pessoas chegando. A reconstrução interior, a renovação de sentimentos, a coragem para tentar gostar de alguém novo, deverão estar sempre presentes, junto com a paciência e a persistência. Dizem que depois da tempestade vem a calmaria e o arco-íris, e eu estou tentando acreditar nisto. E espero que você acredite também. O amor vai e vem. É necessário se machucar, cair e se reerguer muitas vezes até chegar o momento que ele vai, definitivamente, ficar. E enquanto ele não chega, você, a cada mutilação, a cada destruição, vai se reerguendo cada vez mais forte. Construindo alicerces cada vez mais firmes que vão, em determinado momento, deixar de cair e mesmo com as fortes tempestades, continuar no mesmo lugar, intacto. Nesse momento, quando parar de doer, quando parar de te derrubar e te fazer sofrer você vai descobrir a coisa mais magnífica de todas: você vai aprender, realmente, a amar.

sábado, 9 de abril de 2011

Diário de uma Paixão


''   A razão pela qual dói tanto nos separarmos é porque as nossas almas estão ligadas.Talvez, sempre tenham sido assim e para sempre serão. Talvez, tenhamos vivido mil vidas antes desta, e em todas elas tenhamos nos encontrado. E, talvez, em cada uma delas tenhamos sido obrigados a nos separar pelos mesmos motivos. Isso significa que esta despedida é, ao mesmo tempo, um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio do que virá.
    Quando olho para você, vejo a sua beleza e o seu encanto e sei que ficaram mais fortes a cada vida que você viveu. E eu sei que passei todas as vidas, antes desta, procurando você, porque a sua alma e a minha têm de estar sempre juntas. E assim, por alguma razão que nenhum de nós dois entende, fomos forçados a dizer adeus.
    Eu adoraria dizer que tudo vai dar certo para nós, e prometo fazer tudo que eu puder para que isso aconteça. Mas se nunca mais voltarmos a nos encontrar, e se isto for verdadeiramente uma despedida, sei que nos veremos em outra vida.
   Nós nos encontraremos de novo, e talvez até lá as estrelas tenham mudado, e então nós nos amaremos, não só naquele momento, mas por todas as vidas que tivemos antes. ''

(Trecho extraído do livro ''Diário de uma Paixão, de Nicholas Sparks)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sobre fracos e fortes.


As pessoas costumam julgar e definir os outros como fracos e fortes. Se você desiste de algo que não deu certo, você é fraco, inútil, derrotista. Se dá a cara a bater, corre atrás do inalcansável, e ferra com boa parte da tua auto-estima e dignidade, aí você é forte. Você é forte quando orgulha os outros. É forte quando só faz coisas certas e a favor dos mesmos. É forte quando é totalmente altruísta e pára de pensar em sí para se preocupar e pensar apenas nos outros. Tu é forte se supera todas as perdas e desgraças na tua vida firme e forte, sem derramar uma única lágrima, e está sempre pronto pra outra, com a postura firme e o semblante tranquilo de quem nunca sofreu. Tu é forte quando não demonstra fraqueza. Quando não demonstra o quão difícil as coisas estão. É forte quando mente e quando faz de conta que está tudo ás mil maravilhas.

E então tu admite que está tudo uma bosta. Que não tem consegue achar solução alguma pra nada e não consegue ver uma ''luz no fim do túnel''. Tu admite que está no fundo do poço sem mola, sem corda e com a água lá dentro aumentando cada vez mais o nível. Tu não faz a mínima idéia do que continua fazendo aqui. Aí você é fraco. Você é fraco por ter problemas, por não ter uma vida perfeita onde o dinheiro cai do céu, tua vida afetiva é maravilhosamente perfeita, tua família não tem problemas e tu só tem um único compromisso na vida: estudar. Em alguns casos, estudar e trabalhar apenas para sí.
Eu acho realmente admirável o quão cruéis as pessoas podem ser. O quão egoístas elas conseguem ser, também. Eu sou o tipo de pessoa que nunca penso em mim. Se eu estiver com frio, e a pessoa do meu lado estiver com frio também, eu vou passar frio e dar o casaco a ela. É claro que eu não exijo que as pessoas sejam assim comigo também. Jamais cobrei favores e nem fiz nada por interesse. É apenas admirável, que uma pessoa veja o quão mal você está, e consiga apenas falar de sí própria e pedir ajuda, ou pior, esquecer que você existe quando não precisa dos teus ''conselhos e serviços'' e quando você está numa pior, e lembrar que tu é uma criatura que faz parte deste mundo quando está realmente em apuros e tu é a única pessoa que vai pelo menos, tentar ajudar. É cruel saber que isto acontece com pessoas que eu realmente considero. É cruel saber que em um dos piores momentos da minha vida, poucas pessoas realmente se importam. Sendo que, em inúmeras vezes, deixei de me preocupar com minha própria vida para cuidar da vida e da dor dos outros.

Quando as pessoas classificam alguém como fraco ou forte, elas não olham o histórico da criatura em questão. Elas apenas julgam. Vocês já pensaram se um médico desse o diagnóstico final do paciente sem antes fazer a anamnese? É a mesma coisa. Eu posso simplesmente dizer que fulano é fraco porque desistiu de tudo. Não estou defendendo aqui, que é certo desistir e se deixar abater com as coisas ruins que nos acontecem, não é nada disto. Estou apenas dizendo, que eu poderia facilmente classificar como loser, como fraco, essa criatura que desistiu. Mas quem sabe os porquês? Quem sabe o que levou esta pessoa á destruição, á tristeza geral, á desilusão de tudo? É fácil julgar sem saber antecedentes. É fácil dizer para o paciente em fase terminal que ele precisa ser forte e aceitar as dores atrozes e não sucumbir senão ele é fraco. Muito embora isto seja bem difícil de se encontrar, pois os pacientes em sua última fase são os maiores exemplos de vida que já ouvi falar. O meu ponto é: é certo julgar, classificar alguém como forte ou fraco, sem saber realmente o que acontece na vida da pessoa? É certo dizer que é errado chorar, se descabelar, gritar por socorro e querer fugir, sem saber que problema (ou problemas) afligem aquela criatura? É certo achar que só porque você tem uma vida de alice no país das maravilhas, todos tem que, obrigatoriamente ter também? É certo julgar os outros por sí mesmo? É certo não se importar?

Repito: nenhum bem que eu fiz foi pensando em retorno. Em conversa com uma vizinha e amiga no fim de semana passado, ela me disse que eu mesma procurava me decepcionar com as pessoas. Eu mesma era uma pessoa que passava a imagem de fragilidade para os outros, logo temos: se você precisa de ajuda, vou sair de onde estou e vou fazer o impossível para te ajudar. Mesmo que você lembre que eu existo apenas nas horas em que precisa e nas outras horas tenha como passatempo desejar que eu me ferre e viva pisando na bola comigo. Assim mesmo, eu vou ajudar. Ela me disse que apesar de tudo, isso era errado. Aí então ela me lançou uma pergunta: agora, que tu está numa das piores fases da tua depressão, tem alguém disposto e preocupado contigo? Alguém que tu ajudou, cuidou, se preocupou, está agora pensando em uma maneira de te ajudar? Minha resposta foi óbvia. Não. Nenhuma destas pessoas está hoje sequer pensando se estou bem ou não. Apesar de parecer meio melodramático isto, é triste para mim saber que as pessoas que mais considero e me preocupo, não tem esta reciprocidade para comigo. É bem estranho ser apenas uma espécie de ''psicóloga-enfermeira-cuidadora-quebra-galho'' na vida das pessoas. É bem estranho estar sozinha na hora em que eu mais preciso de alguém comigo. Mas como disse a minha amiga: um dia tu aprende, nem que seja da maneira mais dura, que pensar em ti em primeiro lugar não é egoísmo- é amor próprio. Um dia tu aprende a deixar os outros de lado e se preocupar contigo. Um dia tu aprende.

'' Uma grande e triste e quase intolerável maldade. Um dia, é só o que eu quero, eu vou ficar quieta e entender tudo. Quer dizer: eu vou é querer abrir mão de entender tudo. E como um robô de coração triturado eu me levantei e simplesmente fui embora. '' Tati Bernardi