"Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche."

Martha Medeiros

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sobre fracos e fortes.


As pessoas costumam julgar e definir os outros como fracos e fortes. Se você desiste de algo que não deu certo, você é fraco, inútil, derrotista. Se dá a cara a bater, corre atrás do inalcansável, e ferra com boa parte da tua auto-estima e dignidade, aí você é forte. Você é forte quando orgulha os outros. É forte quando só faz coisas certas e a favor dos mesmos. É forte quando é totalmente altruísta e pára de pensar em sí para se preocupar e pensar apenas nos outros. Tu é forte se supera todas as perdas e desgraças na tua vida firme e forte, sem derramar uma única lágrima, e está sempre pronto pra outra, com a postura firme e o semblante tranquilo de quem nunca sofreu. Tu é forte quando não demonstra fraqueza. Quando não demonstra o quão difícil as coisas estão. É forte quando mente e quando faz de conta que está tudo ás mil maravilhas.

E então tu admite que está tudo uma bosta. Que não tem consegue achar solução alguma pra nada e não consegue ver uma ''luz no fim do túnel''. Tu admite que está no fundo do poço sem mola, sem corda e com a água lá dentro aumentando cada vez mais o nível. Tu não faz a mínima idéia do que continua fazendo aqui. Aí você é fraco. Você é fraco por ter problemas, por não ter uma vida perfeita onde o dinheiro cai do céu, tua vida afetiva é maravilhosamente perfeita, tua família não tem problemas e tu só tem um único compromisso na vida: estudar. Em alguns casos, estudar e trabalhar apenas para sí.
Eu acho realmente admirável o quão cruéis as pessoas podem ser. O quão egoístas elas conseguem ser, também. Eu sou o tipo de pessoa que nunca penso em mim. Se eu estiver com frio, e a pessoa do meu lado estiver com frio também, eu vou passar frio e dar o casaco a ela. É claro que eu não exijo que as pessoas sejam assim comigo também. Jamais cobrei favores e nem fiz nada por interesse. É apenas admirável, que uma pessoa veja o quão mal você está, e consiga apenas falar de sí própria e pedir ajuda, ou pior, esquecer que você existe quando não precisa dos teus ''conselhos e serviços'' e quando você está numa pior, e lembrar que tu é uma criatura que faz parte deste mundo quando está realmente em apuros e tu é a única pessoa que vai pelo menos, tentar ajudar. É cruel saber que isto acontece com pessoas que eu realmente considero. É cruel saber que em um dos piores momentos da minha vida, poucas pessoas realmente se importam. Sendo que, em inúmeras vezes, deixei de me preocupar com minha própria vida para cuidar da vida e da dor dos outros.

Quando as pessoas classificam alguém como fraco ou forte, elas não olham o histórico da criatura em questão. Elas apenas julgam. Vocês já pensaram se um médico desse o diagnóstico final do paciente sem antes fazer a anamnese? É a mesma coisa. Eu posso simplesmente dizer que fulano é fraco porque desistiu de tudo. Não estou defendendo aqui, que é certo desistir e se deixar abater com as coisas ruins que nos acontecem, não é nada disto. Estou apenas dizendo, que eu poderia facilmente classificar como loser, como fraco, essa criatura que desistiu. Mas quem sabe os porquês? Quem sabe o que levou esta pessoa á destruição, á tristeza geral, á desilusão de tudo? É fácil julgar sem saber antecedentes. É fácil dizer para o paciente em fase terminal que ele precisa ser forte e aceitar as dores atrozes e não sucumbir senão ele é fraco. Muito embora isto seja bem difícil de se encontrar, pois os pacientes em sua última fase são os maiores exemplos de vida que já ouvi falar. O meu ponto é: é certo julgar, classificar alguém como forte ou fraco, sem saber realmente o que acontece na vida da pessoa? É certo dizer que é errado chorar, se descabelar, gritar por socorro e querer fugir, sem saber que problema (ou problemas) afligem aquela criatura? É certo achar que só porque você tem uma vida de alice no país das maravilhas, todos tem que, obrigatoriamente ter também? É certo julgar os outros por sí mesmo? É certo não se importar?

Repito: nenhum bem que eu fiz foi pensando em retorno. Em conversa com uma vizinha e amiga no fim de semana passado, ela me disse que eu mesma procurava me decepcionar com as pessoas. Eu mesma era uma pessoa que passava a imagem de fragilidade para os outros, logo temos: se você precisa de ajuda, vou sair de onde estou e vou fazer o impossível para te ajudar. Mesmo que você lembre que eu existo apenas nas horas em que precisa e nas outras horas tenha como passatempo desejar que eu me ferre e viva pisando na bola comigo. Assim mesmo, eu vou ajudar. Ela me disse que apesar de tudo, isso era errado. Aí então ela me lançou uma pergunta: agora, que tu está numa das piores fases da tua depressão, tem alguém disposto e preocupado contigo? Alguém que tu ajudou, cuidou, se preocupou, está agora pensando em uma maneira de te ajudar? Minha resposta foi óbvia. Não. Nenhuma destas pessoas está hoje sequer pensando se estou bem ou não. Apesar de parecer meio melodramático isto, é triste para mim saber que as pessoas que mais considero e me preocupo, não tem esta reciprocidade para comigo. É bem estranho ser apenas uma espécie de ''psicóloga-enfermeira-cuidadora-quebra-galho'' na vida das pessoas. É bem estranho estar sozinha na hora em que eu mais preciso de alguém comigo. Mas como disse a minha amiga: um dia tu aprende, nem que seja da maneira mais dura, que pensar em ti em primeiro lugar não é egoísmo- é amor próprio. Um dia tu aprende a deixar os outros de lado e se preocupar contigo. Um dia tu aprende.

'' Uma grande e triste e quase intolerável maldade. Um dia, é só o que eu quero, eu vou ficar quieta e entender tudo. Quer dizer: eu vou é querer abrir mão de entender tudo. E como um robô de coração triturado eu me levantei e simplesmente fui embora. '' Tati Bernardi



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